10/09/2006

Momento de Poesia


Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante do tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que, cansado, me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou passear por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que me não diz respeito
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente, não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

Almada Negreiros