29/04/2006

With or without you


See the stone set in your eyes
See the thorn twist in your side
I wait for you

Sleight of hand and twist of fate
On a bed of nails she makes me wait
And I wait without you

With or without you
With or without you

Through the storm we reach the shore
You give it all but I want more
And I'm waiting for you

With or without you
With or without you
I can't live
With or without you

And you give yourself away
And you give yourself away

My hands are tied
My body bruised, she's got me with
Nothing to win and
Nothing left to lose

And you give yourself away
And you give yourself away
And you give
And you give
And you give yourself away

With or without you
With or without you
I can't live
With or without you

U2

25/04/2006

Os Olhos eram Verdes




Os olhos (...) eram verdes... não daquele verde descorado e traidor da raça felina, não daquele verde mau e destingido, que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.
São os mais raros e os mais fascinantes olhos que há.
(...) Tinha os olhos verdes; e o efeito desta rara feição naquela fisionomia, à primeira vista tão desconcertante - era em verdade pasmoso. Primeiro fascinava, alucinava; depois, fazia uma sensação inexplicável e indecisa, que doía e dava prazer ao mesmo tempo; por fim, pouco a pouco, estabelecia-se a corrente magnética tão poderosa, tão carregada, tão incapaz de solução de continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desaparecia, e toda a intelegência e toda a vontade eram absorvidas.
(...) Olhos verdes!!... (...) Não se reflecte neles a pura luz do céu, como nos olhos azuis.
Nem o fogo e o fumo das paixões, como nos pretos.
Mas o viço prado, a frescura e animação do bosque, a flutuação e a transparência do mar...
Tudo está naqueles olhos verdes.
(...) No verde está a origem e o primeiro tipo de toda a beleza.

Almeida Garrett

Ainda Que Mal


Ainda que mal pergunte
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te diga;
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrad

23/04/2006

Saudade


Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!

Florbela Espanca
(pintado por Eduardo Naranjo)

21/04/2006

Escrevo-te para Devolver Tudo o Que Não Deste


Escrevo-te do lugar onde nos encontrámos e separámos. A velha estação de comboio, à beira das árvores despidas pelo vento, ao cair da tarde, ao cair de Setembro. O comboio que te trouxe e levou. Escrevo-te daqui do lugar onde disseste: ficarei para sempre. E partiste. A marca da despedida na última página do teu diário. Do lugar onde estragámos a festa, espantámos a caça, atrapalhámos o trânsito. O lugar onde nos encontrámos e separámos: o Outono. Escrevo-te do lugar onde marcámos o nosso desencontro. Iamos de viagem e o comboio parou, durante dois anos, na estação mais sinistra do percurso. Ficámos ali sozinhos no centro do nada. Onde está o maquinista, os outros passageiros? Nenhuma esxplicação, ninguém a quem apresentar queixa. Encalhámos no Outono. Conhecemo-nos em Julho e já era Outono. Nunca saímos do Outono. Nao houve Primaveras nem Verões nos anos do nosso amor. Ficámos suspensos a ver as árvores despirem-se. Olhei-te, confundido: porque nos atiraste para aqui? Mas tu eras muito jovem e não ouvias. Estavas deslumbrada com a tua força. Paraste o mundo no Outono. Ergueste uma barreira e conseguiste deter o próprio movimento do planeta. Uma barreira de ardis, de perfídias e cobardias, acinte e frio e vazio, tu que gostavas de brincar com as palavras com muitos iis. Escrevo-te do lugar onde humilhámos o Universo. Para te devolver tudo. As carícias que esqueceste. As cartas que não escreveste. E as que nunca abriste. Escrevo-te para te devolver tudo o que não deste. E as horas de desespero, de olhos fechados em frente ao mar. A espera inexorável e mesquinha, junto ao telefone. Escrevo-te para devolver a marca de esperança louca, na última página de meu diário. Escrevo-te. Para devolver o Outono.

Paulo Moura