21/04/2006

Escrevo-te para Devolver Tudo o Que Não Deste


Escrevo-te do lugar onde nos encontrámos e separámos. A velha estação de comboio, à beira das árvores despidas pelo vento, ao cair da tarde, ao cair de Setembro. O comboio que te trouxe e levou. Escrevo-te daqui do lugar onde disseste: ficarei para sempre. E partiste. A marca da despedida na última página do teu diário. Do lugar onde estragámos a festa, espantámos a caça, atrapalhámos o trânsito. O lugar onde nos encontrámos e separámos: o Outono. Escrevo-te do lugar onde marcámos o nosso desencontro. Iamos de viagem e o comboio parou, durante dois anos, na estação mais sinistra do percurso. Ficámos ali sozinhos no centro do nada. Onde está o maquinista, os outros passageiros? Nenhuma esxplicação, ninguém a quem apresentar queixa. Encalhámos no Outono. Conhecemo-nos em Julho e já era Outono. Nunca saímos do Outono. Nao houve Primaveras nem Verões nos anos do nosso amor. Ficámos suspensos a ver as árvores despirem-se. Olhei-te, confundido: porque nos atiraste para aqui? Mas tu eras muito jovem e não ouvias. Estavas deslumbrada com a tua força. Paraste o mundo no Outono. Ergueste uma barreira e conseguiste deter o próprio movimento do planeta. Uma barreira de ardis, de perfídias e cobardias, acinte e frio e vazio, tu que gostavas de brincar com as palavras com muitos iis. Escrevo-te do lugar onde humilhámos o Universo. Para te devolver tudo. As carícias que esqueceste. As cartas que não escreveste. E as que nunca abriste. Escrevo-te para te devolver tudo o que não deste. E as horas de desespero, de olhos fechados em frente ao mar. A espera inexorável e mesquinha, junto ao telefone. Escrevo-te para devolver a marca de esperança louca, na última página de meu diário. Escrevo-te. Para devolver o Outono.

Paulo Moura

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